NICS – UNICAMP

Histórico do NICS

Fundação

O Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora (NICS), criado em 05 de abril de 1983 pela portaria GR 101/83, tem como objetivo principal pesquisar diferentes manifestações que tenham o som, em todos os seus aspectos e aplicações, como fonte de conteúdo informacional, cognitivo e criativo. Congregando pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, centradas em Artes & Ciências, atua no desenvolvimento de projetos interdisciplinares que visam ao estabelecimento de relações entre a análise e criação musicais, por um lado, e a proposta de novos modelos de produção, controle e análise de processos sonoros, por outro.

O NICS nasceu da visão emblemática de pesquisadores pioneiros que viram na comunicação sonora um amplo campo para a pesquisa interdisciplinar. Desde o seu início, o NICS tem a presença marcante do Prof. Dr. Raul do Valle, do Departamento de Música, que foi pioneiro ao idealizar para o Núcleo um diálogo com a música de hoje; contou com o pensamento da acústica e a ressonância dos sons na visão do Prof. Dr. Carlos Arguello, do Instituto de Física “Gleb Wataghin”; com o som dos pássaros e os seus múltiplos cantos no ponto de vista da bioacústica do Prof. Dr. Jacques Vielliard, do Instituto de Biologia; e com a análise do espectro sonoro e processamento de sinais do Prof. Dr. Furio Damiani, da Faculdade de Engenharia Elétrica. Durante três décadas o NICS construiu uma trajetória demarcada por caminhos apresentados a seguir.

Décadas de 1990 e 2000

 Na década de 1990, destacamos as composições musicais do Prof. Dr. Raul do Valle, que criou obras inéditas que foram trilhas sonoras de três documentários produzidos pela EPTV e, posteriormente, apresentados no programa Globo Repórter: “Beija-Flor” (1994), “Terra de Engenho” (1995) e “Encanto das Águas” (1996). Essas três obras estiveram vinculadas aos seguintes prêmios internacionais: Honorable Mention & Merit award Human and Nature Relationship, no 18º International Wild Life Film Festival, em Missoula (Montana, EUA), e Finalist award, no The New York Film Festival, em Nova Iorque (EUA).

Em 1994, com a vinda do Prof. Dr. Jônatas Manzolli, na época recém‑doutor, o NICS iniciou um diálogo mais intenso com questões articuladas entre música e tecnologia. Em agosto desse ano,  criava-se o Núcleo de Computação Musical (NUCOM), vinculado à Sociedade Brasileira de Computação (SBC), e realizava-se o I Simpósio Brasileiro em Computação Musical. Nessa época, a pesquisa do Núcleo voltava-se também para a computação musical e iniciavam-se os desdobramentos nos estudos de modelos matemáticos, simulação computacional, criação e análise musicais associadas às técnicas de processamento digital de sinal. Com a adição dessa nova linha de pesquisa, juntando-se aos ideais preconizados na sua fundação, são plantadas as sementes do ideário de estudo com o qual o NICS trabalha nos dias atuais. A partir da avaliação trienal (1997/1999) realizada pela Comissão de Avaliação Interdisciplinar (CAI), o NICS foi considerado Núcleo de Nível I (Excelente), e nas avaliações posteriores sempre esteve nessa mesma posição de destaque.

Durante essa década também foram alcançados resultados expressivos. Entre eles, destacamos a exposição Orbit’98, em Basel, na Suíça, na qual o ROBOSER, sistema produzido através da colaboração entre o NICS e o Institute of Neuroinformatics (INI) do Swiss Federal Institute of Technology (ETHZ) de Zurique foi apresentado pela primeira vez. Essa pesquisa pioneira, desenvolvida por Jônatas Manzolli (NICS) e Paul Verschure (INI), foi o primeiro sistema de composição musical a utilizar a navegação do robô Khepera como forma de gerar estruturas musicais. Em 1999, os pesquisadores Prof. Dr. Jônatas Manzolli (NICS), Dra. Artemis Moroni (Divisão de Robótica e Visão Computacional – DRVC do CTI Renato Archer, de Campinas), Prof. Dr. Fernando Von Zuben e Prof. Dr. Ricardo Gudwin (FEEC), desenvolveram o VOX POPULI, sistema evolutivo aplicado à composição musical algorítmica. Nesse mesmo ano, o VOX POPULI foi premiado no Dream Centenary Computer Graphics Grand Prix 99, em Aizu, no Japão, na  categoria de melhor “Instalação Interativa”.Dos anos 2000, destacamos o projeto “Dancing Beyond Boundaries”, que foi o primeiro projeto musical no Brasil a utilizar a Internet2 como suporte para performance artística interativa e distribuída. Nesse trabalho – premiado como o “melhor uso criativo da Internet2” na SuperComputing Global, 2001 –, o Digital World Institute da Florida University, o laboratório LARCOM da FEEC (dirigido pelo Prof. Dr. Leonardo Mendes), e o Prof. Dr. Jônatas Manzolli do NICS realizaram uma performance multimodal integrando música e dança, na qual músicos no estúdio do NICS e na Universidade da Florida interagiram em tempo real com um coreógrafo em Minnesota e bailarinos em Denver.

Em 2002 cabe ressaltar a participação dos pesquisadores do NICS na “ADA: Intelligent Space”, projeto de pesquisa entre o NICS e o Institute of Neuroinformatics (INI) do Swiss Federal Institute of Technology (ETHZ) de Zurique. A ADA foi apresentada de maio a outubro de 2002 na EXPO.02 (exposição nacional da Suíça que se realiza a cada 30 anos), numa plataforma aquática localizada num dos lagos do Cantão de Neuchâtel. Em julho de 2002, o número de pessoas que visitavam a ADA já ultrapassava 250 mil (marca esperada para o período total da exposição). Em 20 de outubro a ADA fechou suas portas com a marca de 553.700 visitantes. Essa pesquisa envolveu uma equipe multidisciplinar de cerca de 27 pesquisadores vindos da Suíça, Inglaterra, Israel, África do Sul, Estados Unidos, Austrália e Brasil. O NICS participou na direção musical e no desenvolvimento de um novo sistema ROBOSER específico para a ADA. Esta atividade de pesquisa, além do impacto de público, foi alvo de análise a partir do ponto de vista das várias áreas de conhecimento envolvidas. Em particular, o NICS colaborou numa série de artigos sobre a utilização de processos musicais em Neurociências e em Instalações Multimídia. É importante ressaltar que os trabalhos publicados envolveram os 27 pesquisadores internacionais que trabalharam no projeto ADA,  dentre os quais destacamos a inestimável colaboração do Prof. Dr. Paul Verschure com o qual o NICS mantém colaboração até os dias atuais.

Em 2003, o NICS efetuou um ajuste no seu Regimento Interno, bem como elaborou a sua primeira Certificação e Planejamento Estratégico. Já nesse período, desenvolvia forte relacionamento internacional tendo firmado colaborações com instituições da Suíça, Espanha, Itália, Canadá e Portugal, algumas delas via acordos “guarda-chuva” viabilizados através da então Coordenadoria de Relações Internacionais (CORI, hoje VRERI) da UNICAMP. Como resultado dessa Certificação, o NICS obteve uma nova vaga de pesquisador Pq, a qual foi ocupada pelo Dr. José Eduardo Fornari Novo Jr. que, até a presente data, é o único pesquisador da carreira Pq do NICS. Ainda em 2003, o Instituto de Computação, NICS e o Núcleo de Computação Musical (NUCOM) da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) organizaram na UNICAMP o IX Simpósio Brasileiro de Computação Musical (SBCM).

No final dessas décadas, pode-se verificar que o processo de formação de recursos humanos vinculou-se aos novos pesquisadores formados no NICS em parceria com a FEEC como o 1) “Síntese sonora auto-organizável através da aplicação de algoritmos bio-inspirados”, de Marcelo Caetano, defendida em 20 de abril de 2006, que desenvolveu seu mestrado sob a orientação do Prof. Dr. Fernando Von Zuben (FEEC) e co-orientação do Prof. Dr. Jônatas Manzolli e seguiu seus estudos doutorais no IRCAM, em Paris, na França, terminando-os em 2011, os quais deram ênfase em processamento de sinais em computação musical e percepção sonora; 2) “Modelos de representação de sinais musicais via transformada Wavelets”, de André Luiz Luvizotto, defendida 17 de fevereiro de 2007, que realizou seu mestrado sob a orientação do Prof. Dr. Rafael Santos Mendes (FEEC) e co-orientação do Prof. Dr. Jônatas Manzolli; e 3) “Controle de síntese sonora por analogia acústica e semântica aplicando computação bio-inspirada”, de César Rennó Costa, defendida 17 de fevereiro de 2007, que desenvolveu seu mestrado na FEEC sob a orientação do Prof. Dr. Fernando Von Zuben (FEEC) e co-orientação do Prof. Dr. Jônatas Manzolli. Os dois últimos seguiram suas pesquisas de doutorado em Barcelona sob a orientação do Prof. Dr. Paul Verschure, com teses sobre neurociência computacional, terminando-os no ano de 2011.

Atualidade: Quinquênio 2009-2013

Desde 2009, os laços entre o NICS e o CIDDIC se estreitaram, através das colaborações em projetos de concertos interativos com a Orquestra Sinfônica da UNICAMP (OSU). Há também colaborações com outros núcleos da UNICAMP. O NICS tem participado do Grupo de Auto-organização do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) que realiza estudos sobre o conceito de auto-organização e as possibilidades de sua aplicação em diversas áreas do conhecimento.

Ressaltamos também que, com a vinda do Sr. Edelson Henrique Constantino, analista de sistemas, houve um trabalho de construção de uma nova estrutura de hardware e software e atualmente o parque Computacional atende às demandas fundamentais dos pesquisadores do NICS. Esse parque está conectado ao backbone da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) através de fibra ótica com taxa de 1 Gbps. Por sua vez, o backbone opera com taxas de até 10 Gbps e provê conexão dedicada à Internet através da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), com um link de 40 Gbps, e através da Rede Acadêmica do Estado de São Paulo (ANSP), com um link de 1 Gbps, redundantes.

O NICS passou a sediar o TEDx-UNICAMP, organizado pelo pesquisador Dr. José Eduardo Fornari Novo Junior.  O primeiro evento, realizado em 20 de novembro de 2011, versou sobre o tema “A fronteira entre Ciência e Arte”. Esse evento, de formato inédito na instituição, contou com palestrantes, todos eles pesquisadores e professores da UNICAMP, apresentando palestras de curta duração (15-20 minutos) sobre temas que veicularam visões acadêmicas a respeito de Ciência e Arte. A partir desse primeiro TEDx-UNICAMP, o NICS recebeu a licença do TED-Global e passou a organizar regularmente vários eventos TEDx.

Desde 2008, o único pesquisador da Carreira Pq do NICS (Dr. José Eduardo Fornari Novo Junior), realiza uma série de atividades acadêmicas e ministra disciplinas no programa de pós-graduação no  Departamento de Música do Instituto de Artes da UNICAMP. Em 2011 recebeu o prêmio Itaú Cultural, Rumos Arte Cibernética, agraciado ao trabalho intitulado RePartitura, de Mariana Shellard e José Fornari. Esse trabalho foi exposto, na forma de instalação multimodal, na sede do Itaú Cultural, pelo período de 30 de Julho a 4 de Setembro de 2011. Em 2012, a sua instalação de multimídia intitulada “A Pedra”, foi selecionada para participar do FILE Mídia Arte, parte da exposição do FILE São Paulo 2012 – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, no Centro Cultural do SESI, de 16 de julho a 19 de agosto de 2012.

Durante esse quinquênio houve um aumento significativo das atividades do NICS junto ao programa de pós-graduação em Música da UNICAMP. No final de 2011, iniciou-se um novo ciclo acadêmico com um grupo significativo de novos pesquisadores e alunos de pós-graduação. Ampliou-se também a colaboração com instituições brasileiras como o Núcleo de Sonologia (NUSOM) da ECA/USP, o grupo MUS3 da UFPB e o DRVC do Centro de Pesquisa “Renato Archer” (CTI). Mantiveram-se e/ou iniciaram-se as colaborações com a Universidade Pompeu Fabra, Barcelona, com o laboratório IDMIL  da McGill University, Canadá, com o FORUM, com o grupo de Representações Musicais do IRCAM e com a Universidade de Paris VIII. Recentemente, o NICS organizou também o comitê de artigos musicais e o Concerto de Abertura do XIII Simpósio Brasileiro de Computação Musical. No XXI Congresso da ANPPOM, em 2011, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), pesquisadores do NICS estiveram envolvidos na organização do Grupo de Trabalho em Sonologia.Em suma, para ratificar que o pensamento interdisciplinar é essencial ao desenvolvimento do conhecimento humano, o NICS constrói diálogos possíveis entre duas grandes áreas do conhecimento: Ciência & Arte. Apresenta os resultados da sua pesquisa em eventos nacionais e internacionais e cria obras artísticas como forma de influenciar a comunidade científica e artística com sua leitura do pensamento sobre a modernidade. Desta forma, almeja uma transformação no processo de aquisição do conhecimento que produza princípios de equilíbrio e visão crítica nos contextos da produção artístico-cultural e científica.

Encerramos pontuando que no contexto atual da produção musical, muitos compositores têm criado sistemas algorítmicos para organizar o material sonoro e dialogar com outras modalidades dos sentidos humanos, de modo tal que apresentam ao público um processo de imersão em novas experiências sensoriais: novas formas de ouvir, sentir, interpretar, expor e/ou apresentar a composição musical e a interação com outras linguagens. O uso atual de modelos analíticos e composicionais, aliados a sistemas computacionais, possibilita o desenvolvimento de estratégias inovadoras que fomentam a criação de obras abertas e interativas, como improvisação não-idiomática, instalações sonoro-visuais e uma gama muito grande e diversa de novas formas de expressar estética e poeticamente a Comunicação Sonora. Todavia, refletimos que a semente que florece é plantada no diálogo interdisciplinar entre Arte e Ciência que, por ventura, fora estabelecido nas origens do conhecimento humano e, por muitas vezes, ofuscado e debilitado nas instituições de ensino e pesquisa.

Talvez junto com a composição da obra “Ionization” (1929-31), Edgar Varèse tenha projetado esse caminho e florecimento quando cotejou que “a beleza começa onde a Ciência e a Arte trabalham juntas”.

Finalmente, a figura abaixo apresenta de forma sintética uma linha do tempo na qual destacamos os principais eventos da trajetória do NICS.

Trajetoria NICS